A autonomia universitária e a Constituição

 
 

O jurista Dalmo Dallari questiona a legalidade dos decretos do governador José Serra
que interferem na gestão das universidades públicas paulistas
 

Os estudantes acampados no prédio da reitoria da USP desde o dia 3 de maio descobriram que não estão sozinhos na luta pela manutenção da autonomia universitária. O jurista Dalmo Dallari tornou-se o “braço legal” do movimento. Ele anunciou que irá encaminhar uma ação direta de inconstitucionalidade contra as medidas do governador José Serra, a começar pelo decreto que criou a Secretaria do Ensino Superior. “A própria criação da Secretaria é inconstitucional. Se as universidades são autônomas, não existe motivo para criar uma secretaria para cuidar delas”, afirma Dallari. “Se a intenção do governo é não mudar nada, para que criar uma secretaria?”.

Desde 1989, as três universidades públicas do Estado de São Paulo - USP, Unesp e Unicamp - têm plena liberdade orçamentária. Elas recebem uma quantia fixa e decidem como gastar. Desde 1995, esse valor é fixado em 9,57% do ICMS que o Estado arrecada. A fiscalização dos gastos, assim como nos demais órgãos do governo estadual, é feita pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Entre as novidades anunciadas por Serra, está a prestação de contas em tempo real. Desde 1997, as universidades computavam os gastos mensalmente. “A obrigatoriedade de prestar contas em tempo real deixa as universidade mais vulneráveis ao governo, que poderia se recusar a liberar os recursos”, diz Dallari.

Um outro item implementado por José Serra já teve sua constitucionalidade contestada. O decreto 51.471, de 2 de janeiro, congelou a contratação de pessoal na administração estadual, inclusive nas chamadas autarquias de regime especial, que são as universidades. “Esse item simplesmente nos proíbe de contratar, e os reitores não podem deixar de iniciar um curso ou um projeto por não poder contar com novos professores ou técnicos”, afirma José

 


Dallari: obrigatoriedade de prestar contas em tempo real deixa as universidades mais vulneráveis ao governo.

Jorge Tadeu, reitor da Unicamp e presidente do Conselho dos Reitores das Universidades Estaduais Paulistas. “O artigo 207 da Constituição garante a autonomia das universidades. Nosso entendimento é de que nenhum decreto se sobrepõe a ele, continuamos contratando. Mais tarde, mandamos um ofício à Secretaria de Gestão Pública dizendo que continuaríamos contratando. A Secretaria respondeu que nosso entendimento era correto”. Na prática, isso significou que o decreto assinado por Serra perdeu o valor dentro do próprio governo.

Uma vez que as negociações com os estudantes não têm avançado, é provável que os decretos de Serra aos poucos sejam revogados. O próprio secretário do Ensino Superior, José Aristodemo Pinotti, admite que os eventuais erros vêm sendo corrigidos. Sobre a proposta de o governo ter de aprovar o remanejamento de verbas das universidades a partir do ano que vem, Pinotti diz que a idéia já foi engavetada. “Isso foi no início, quando estávamos conversando sobre os decretos com os reitores, e havia essa possibilidade. Agora, está decidido que isso não vai ocorrer”.

 

Fonte: Época On-line, Andréa Leal, 28/5/07.

 

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