O Casaquistão é aqui
Alberto Dines*

 

Falta aparecer o Borat para gozar as hipocrisias

As declarações da psicanalista Eliane Mantega, mulher do ministro da Fazenda, vão ganhar os prêmios "Maria Antonieta de Ibiúna" e "Avestruz de Ouro" concedidos aos campeões da categoria "De Costas para a Vida".

Compreende-se o seu incômodo em aparecer como vítima de um seqüestro múltiplo junto com o ilustre marido e os filhos, mas a sua complacência com os bandidos que assaltaram a mão armada a chácara dos amigos em Ibiúna é ultrajante: "Eles só queriam dinheiro... foram supergentis... ladrões-de-galinha" [ver "Correção política, insensibilidade moral"].

Com fraseado mais coloquial e igual distanciamento, reproduziu a doutrina palaciana adotada para enfrentar a indignação que tomou conta do Brasil (sobretudo das brasileiras) diante da barbaridade cometida contra o menino João Hélio, no Rio. Para o quase ex-ministro Márcio Thomas Bastos, a violência é um processo que precisa ser enfrentado por outro processo, atalhos "emocionais" nada resolvem. Resolvem sim, Excelência, processos inanimados costumam ir para o lixo da História [ver "Portinari versus Lula"].

Compromisso contínuo

A mídia engoliu esta, como engole qualquer coisa politicamente correta mesmo quando moralmente revoltante. A mídia está mais esbaforida do que nunca, seu estoque de adrelina evaporou com o calor do verão. O governo não está interessado em dar prioridade às questões que envolvem impunidade. É tabu. Levado às últimas conseqüências, um debate sobre o tema fatalmente transbordaria para o Dossiêgate que acaba de ser chutado mais uma vez para escanteio.

Decidiu o Procurador-Geral da República que o senador Aloízio Mercadante não pode ser indiciado pela Polícia Federal por ter direito a foro especial. Está certo, todos estão certos, os culpados mudaram-se para endereços desconhecidos. Com a decisão, a compra do dossiê contrabandeado para as páginas da IstoÉ ficou na esfera dos aloprados municipais do PT. O dinheiro foi arranjado por eles, eles é que desenvolveram este tipo de "jornalismo investigativo".

Em outras palavras: o "processo" que culminou com um dos maiores crimes eleitorais dos últimos tempos vai continuar rolando nas gavetas de baixo – e por muito tempo, já que o delegado Paulo Lacerda anunciou que ficará mais seis meses à frente da Polícia Federal.

Na esfera palaciana, o único processo que interessa tocar é o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). De olho nas bolhas e euforias que produzirá na publicidade, a mídia esquece a sua decisiva contribuição para dar qualidade, consistência e sustentabilidade a este crescimento.

Amostra desta modesta contribuição foi a matéria de capa da Veja sobre a extorsão por telefone, o tal "Disque-Seqüestro" (edição 1996, de 21/2/2007). A modalidade é conhecida há alguns anos, na internet há tempos corriam advertências, ninguém prestava atenção. De repente, uma reportagem de capa numa semana morta, pré-momesca, e o cidadão descobre como enfrentar este novo tipo de ameaça à sua segurança. Os bandidos terão que inventar outro passatempo para as suas horas vagas nos presídios. E os editores terão que adotar outros critérios para programar o seu calendário: todas as edições são importantes, mesmo quando coincidem com feriados, festas, férias.

O compromisso da imprensa com a sociedade é contínuo, apesar das delícias da praia e da montanha.

Filosofar em público

No domingo (18/2), no caderno "+Mais!" da Folha de S.Paulo, o filósofo Renato Janine Ribeiro produziu um dos mais comoventes desabafos sobre o martírio do menino João Hélio. Não foi uma tomada de posição, mas uma dramática exposição de perplexidades e doloridas opções penais diante do horror que estamos condenados a assistir.

Este Observatório chamou a atenção, a mídia tinha outras preocupações e só retornou ao filósofo na semana seguinte (domingo, 25/2), na mesma Folha: em três textos antagônicos, apenas um deles (da professora Olgária Matos) procurou entendê-lo.

Deve existir algum código na ANJ (Associação Nacional de Jornais) para obrigar os associados a absterem-se de comentar textos publicados pelos concorrentes – assim, evitam-se polêmicas capazes de abalar a instituição. A verdade é que não chamou a atenção dos sensíveis radares da mídia este filósofo que não tem respostas prontas na ponta da língua, nem palavras de ordem, entregue à revolta de conviver com as diversas crueldades exibidas pela sociedade brasileira.

Renato Janine Ribeiro quer filosofar em público, fazer pensar, quer compartilhar o seu cartesianismo – penso, logo existo – com a comunidade. A mídia não entra nessa. Não tem tempo para sofrer dilemas, prefere a fulanização, sentenças instantâneas para limpar a pauta.

Aventureiros e descendentes

A tragédia brasileira é que os vetores mais poderosos da sociedade são conflitantes – nada os atrai, tudo os distrai. Ou afasta. Para o governo e governantes punir é perigoso, suicídio, equivale a andar em areia movediça. Para a mídia, a questão crucial de Crime e Castigo só serve para os cadernos dominicais, em resenhas sobre Dostoievski. Nos chamados dias úteis, é perfeitamente inútil, não cabe. Mas o ser humano também existe e pensa no meio da semana. Não há lugar: a maldita segmentação e a sua filha espúria, a cadernização, não deixam.

A mídia sabe, mas não se aflige: sujeitos a guincho, apenas os veículos mal-estacionados. O resto é impune, impunível, inimputável. Ou coitadinhos "ladrões-de-galinha", "supergentis" que "só querem um dinheirinho". Sem falar nos "amigos da casa", cada vez em maior número.

O Brasil tem jeito, basta convocar urgentemente o repórter Borat para arrasar as hipocrisias deste imenso Portugal e a sua mídia insensível com os 50 mortos nas estradas mineiras em fevereiro – só num desastre morreram 16, que mereceram 10 linhas – e com as seis chacinas paulistanas nas quais foram para o beleléu quase 30 cidadãos.

O Cazaquistão é aqui, mas os aventureiros cazaques e seus descendentes, os cruéis cossacos, estão bem disfarçados.

 

* Alberto Dines - Jornalista de participação decisiva na história da imprensa brasileira, Alberto Dines completou 50 anos de profissão em 2002. Idealizador e fundador do Observátório da Imprensa, on-line e pela TV (Editor-responsável), atuou nos maiores jornais do Brasil e desenvolve um trabalho contínuo em pesquisas biográficas.
 

Fonte: Observatório da Imprensa,s, 27/2/2007

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Correção política, insensibilidade moral

Comentário para o programa radiofônico do OI, 26/2/2007 

"Eles só queriam dinheiro... foram supergentis... são ladrões de galinha... não adianta ficar falando nisso. É preciso que o Brasil melhore a polícia, a economia, para diminuir a pobreza e a violência." Foi isso, exatamente isso, que Eliane Mantega, mulher do ministro da Fazenda, declarou ao jornal Diário de S.Paulo – e O Globo reproduziu no domingo (25/2), com destaque.

Mais grave do que o crime em si – assalto a mão armada e seqüestro de três casais com seus filhos, inclusive os Mantega – é esta incrível análise feita por uma psicanalista, teoricamente bem informada, tão próxima do primeiro escalão.

Será um atenuante querer só dinheiro quando se comete um crime? O narcotráfico também não quer só dinheiro? Os bandidos que mataram o menino João Hélio não queriam só dinheiro quando roubaram o carro de sua mãe e o liquidaram barbaramente? Se o dono da chácara assaltada se recusasse a buscar dinheiro em São Paulo os bandidos continuariam "supergentis"?

A doutora Eliane Mantega não viu as armas, não ouviu ameaças? Ladrão de galinha rouba galinha, minha senhora, não seqüestra gente.

Abismo social

A senhora Mantega acha que todas essas histórias sobre violência são factóides, invenção da mídia para vender jornal. "Não gostamos desse escândalo na imprensa, é muito ruim para os nossos filhos e na verdade não aconteceu nada, ficamos todos bem."

Por acaso estão bem os milhões de crianças que vivem aterrorizados pela violência em todo o país? Quem não pode ficar bem é o cidadão comum ao perceber a distância entre governantes e governados, entre a elite e o povão.

Num caso como este seria bom convocar Borat, o repórter do Casaquistão. Ele sabe muito bem como lidar com os politicamente corretos e moralmente insensíveis.


Fonte: Observatório da Imprensa, Alberto Dines em 26/2/2007.

 

 

 


Portinari versus Lula

O governo federal escolheu o lado errado na cruzada para evitar que o menino João Hélio morra pela segunda vez com a vitória da impunidade. O pronunciamento do presidente Lula na véspera do carnaval ao afirmar que a diminuição da maioridade penal poderia chegar à condenação de fetos foi insensível, simplista e beira a leviandade.

Se o governo encampou a convicção do seu quase ex-ministro Márcio Thomaz Bastos de que está no caminho correto na luta contra a violência, não precisava agredir a família enlutada e os milhões de brasileiros (sobretudo brasileiras) solidários com a tragédia dos Vieites. A metáfora foi rasteira, fruto talvez da sua obsessão em imaginar-se num eterno palanque. Qualquer que sejam os atenuantes psicológicos da manifestação presidencial, a verdade é que o Chefe da Nação aferra-se aos sofismas que lhe sopram nos ouvidos e, com isso, enfia-se num bunker impermeável aos sentimentos dos milhões de concidadãos que simplesmente estão com medo – medo de que as coisas só mudarão para pior. Foi contestado abertamente pelos pais de João Hélio.

João Cândido Portinari, filho do nosso pintor maior, foi na direção contrária: algo precisa ser feito já. Se os corações e mentes das autoridades estão embrutecidos pelo jogo político, o caminho será a desobstrução das almas. Optou pela comunhão e pela comunidade: abriu mão dos direitos autorais de cinco mil obras do acervo que está sob sua guarda desde que sejam utilizadas em mensagens contra a violência. Começou com um e-mail dirigido a duas mil pessoas, logo ganhou as primeiras páginas dos jornais e destaques nos telejornais. Em poucos dias, converteu-se num ícone de solidariedade.

Desenhos e esboços para o mural “Guerra e Paz” que está há mais de meio século na sede da ONU serão capazes de melhorar o mundo? A “Pietá” de Michelangelo, na qual Portinari inspirou-se para alguns detalhes, foi esculpida há mais de 500 anos e mudou coisas essenciais na história da humanidade. E nossa humanidade pode ser decisivamente alterada pelos traços trágicos do artista de Brodosqui. Se a violência só pode ser enfrentada como um processo (como apregoam o ministro da Justiça e seus acólitos), este processo precisa ser constantemente ativado por altas doses de emoção e humanidade.

E não foi humanidade que o presidente Lula destilou ao mencionar os fetos. Prometer o fim da violência para quando as escolas que começarão a ser construídas receberem todas as crianças do país é um truque ideológico simplório.

Neste ponto o presidente Lula lembra o seu colega da Casa Branca que se recusou a assinar o Protocolo de Kyoto em defesa do meio-ambiente porque acreditava que o processo econômico sozinho seria capaz de corrigir as distorções e agressões à Natureza.

Processos sociais, políticos, econômicos e até mesmo existenciais não são como os giroscópios, instrumentos automáticos, duradouros e infalíveis, ao contrário, são constantemente confrontados por processos contrários e às vezes mais fortes. O homem dos palanques Lula não tem obrigação de conhecer os princípios elementares da dialética hegeliana mas o jurista Bastos não poderia ignorá-la.

O tal “processo” alegado pelo ministro Bastos na sua infeliz entrevista à “Folha” nesta sexta lembra aquele outro processo inventado por Kafka, construção absurda, verdadeira caricatura do engenho humano. Parecida, aliás, com as teorias do incrível repórter Borat cujo non-sense começa a ser exibido nas telas de cinema do país.

O processo Portinari oferece uma alternativa generosa ao processo messiânico de Lula: tenta agregar, reunir os desgarrados, procura oferecer tarefas coletivas justamente para evitar o vácuo e a solidão onde fermentam os revanchismos.

Adiar mais uma vez a composição do ministério para Março como anunciou o presidente Lula é um mal menor se comparado com o adiamento “sine-die” das nossas esperanças por um País melhor.

Fonte: Último Segundo, Alberto Dines, 23/2/2007.

 

 

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