O coronel agora é censor

 

Chávez deveria ser proibido de entrar no Brasil. Ele quer destruir
as liberdades aqui também

 

Foto: Marco Antonio Teixeira/Ag. O Globo  Foto: Fernando Llano/AP
À esquerda, o coronel ataca a imprensa brasileira, no Rio. À direita, venezuelana protesta em Caracas contra repressão ao canal RCTV: jornalistas acuados

 

O que um ditador de um país periférico faz dentro de suas fronteiras é, desde que não cometa crimes contra a humanidade, um problema de seu povo. A situação é totalmente diferente quando Hugo Chávez desembarca no Rio de Janeiro e se põe a clamar contra a liberdade de imprensa no Brasil. Convidado a receber uma homenagem na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro no dia 19, Chávez exibiu um exemplar do jornal O Globo, cuja primeira página comentava a escalada autoritária na Venezuela. O presidente venezuelano acusou o periódico carioca de "inimigo do povo brasileiro, do povo latino-americano". Não se trata de uma disputa pessoal entre um presidente estrangeiro e um jornal, e sim de uma postura recorrente de Chávez, sob dois aspectos: primeiro, seu desrespeito à livre opinião e, segundo, seu hábito de interferir nos assuntos internos de outros países.  

O venezuelano não tem o direito de trazer esses desmandos para o Brasil, onde a liberdade de imprensa é um valor enraizado e conquistado a duras penas, depois de duas décadas de ditadura. "Atacar um jornal dentro do Brasil foi uma improbidade que deveria ter sido condenada claramente pelo governo brasileiro", diz o ex-chanceler Luiz Felipe Lampréia. Eleito para seu terceiro mandato, Hugo Chávez anunciou um novo formato para seu governo. Resumindo, trata-se de partido único, socialismo e presidente vitalício com poderes para governar por decreto. Regimes com tais características são chamados de ditadura. São, obviamente, incompatíveis com uma imprensa independente. No pacote de inauguração de seu "socialismo do século XXI", Chávez também anunciou o fim da concessão do canal de televisão RCTV, um dos mais populares do país e crítico de seus demandos. O golpe prenuncia o fim da liberdade de expressão na Venezuela.  

Uma forma eficiente de calar a imprensa venezuelana têm sido as ameaças e pressões feitas diretamente contra os jornalistas. Desde 2000, quando Chávez iniciou seu segundo mandato, registraram-se 1 500 agressões físicas a repórteres, operadores de câmera e fotógrafos, a maioria delas praticada por chavistas motivados pelas acusações nominais que Chávez faz a jornalistas em seu programa dominical de televisão. "Fomos todos obrigados a tirar a identificação de imprensa dos carros para evitar ataques", diz o jornalista venezuelano Nelson Bocaranda, da Unión Radio, de Caracas. Em 2005, com a entrada em vigor da Lei de Responsabilidade Social – mais conhecida como "lei da mordaça" –, começou uma avalanche de processos contra jornalistas, acusados de promover "ameaça à segurança nacional" ou "desrespeito a instituições e autoridades legais". O objetivo implícito da lei é levar os jornalistas à autocensura.  

 

Fonte: Rev. Veja, Duda Teixeira, ed. 1993, 31/1/2007.


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