O dedo de Ciro na CPMF

 

Com respaldo do Palácio do Planalto, o ex-ministro ofusca Palocci e se transforma em
principal artífice da aprovação do imposto na Câmara
 

Depois de um breve período de ostracismo político, o deputado Antônio Palocci (PT-SP) voltou a ganhar visibilidade quando se viabilizou como o relator do projeto de prorrogação da CPMF na Câmara. Trata-se do tema que mais tem dominado a atenção do governo e da oposição nos últimos meses. Mas, apesar do empenho de Palocci, quem brilhou com a aprovação do projeto em primeiro turno foi um outro deputado: Ciro Gomes (PSB-CE). Os parlamentares da oposição, que lutavam para evitar a aprovação do "imposto", acabaram surpreendidos. Tradicionalmente, é o relator do projeto o último a usar da palavra para defender seu ponto de vista. Desta vez, o último orador foi Ciro Gomes. Quebrou o protocolo e acabou protagonizando uma cena rara no Congresso, ao conseguir que os 450 deputados presentes no plenário permanecessem em silêncio durante todo o seu discurso. Minutos depois, estava aprovada a CPMF.

Para conseguir tal feito, o deputado aliou boa dose de habilidade nos bastidores com o uso correto de um traço de personalidade que já lhe provocou dissabores políticos: a forma como ele diz o que pensa e a sua disposição para comprar briga. Se em outros momentos isso pesou contra Ciro como incontinência verbal, no caso valeu como demonstração de franqueza e de disposição para defender um tema espinhoso, como a manutenção de uma carga alta de impostos sobre a população. Bom de oratória, Ciro jogou no colo dos oposicionistas a responsabilidade de pôr em risco os programas sociais. "Para fazer um porcentual dessa proporção na receita pública ser cortado abaixo da linha do superávit, ou cortamos a verba da saúde ou cancelamos o Bolsa- Família. Nenhuma de Vossas Excelências quer assumir para o povo brasileiro que é isso o que estão querendo", disse Ciro.

A articulação para que Ciro falasse por último em favor da CPMF saiu do Palácio do Planalto e chegou até o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP). Palocci foi avisado previamente e Chinaglia não ofereceu nenhuma resistência para permitir que Ciro falasse sem que ele tivesse sequer se inscrito anteriormente. Antes de ocupar a tribuna, enquanto Palocci desgastava-se mantendo a determinação da equipe econômica do governo de não negociar nenhuma redução de alíquota com a oposição, Ciro corria em paralelo consolidando os votos da própria base governista, especialmente dentro dos partidos que compõem o Bloco de Esquerda (PSB, PDT, PCdoB, PMN, PRB e PHS).

O desempenho do deputado cearense agradou ao presidente Lula e ao PSB, mas serviu como sinal de alerta a alguns setores do PT. Esses, interpretam os movimentos de Ciro como passos de alguém que planeja se viabilizar como o candidato de Lula na sucessão presidencial. Ciro, por sua vez, trata de desconversar: "É muito cedo para se falar em candidatura presidencial", afirma. Mas, se depender do PSB, a preocupação petista faz sentido. "É uma administração difícil", reconhece o senador Renato Casagrande (PSB-ES). "Mas tem de ser feita: ele não pode sumir, mas não pode se expor demais."

 

Fonte: Rev. IstoÉ, Rudolfo Lago, 3/10/2007.

 


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