[Um 'diplomata' Bem 'trapalhão'...]
EUA usarão fala de Amorim contra o Brasil na OMC

 

 

Analogia de Amorim sobre tática nazista de ricos vira arma
contra o Brasil na OMC
 

GENEBRA – Os Estados Unidos se anteciparam e estão adotando uma estratégia para desqualificar a posição do Brasil às vésperas de um encontro importante que começa nesta segunda-feira e vai reunir 35 ministros, na Organização Mundial de Comércio (OMC), sobre a Rodada Doha, que se arrasta há quase sete anos. A reação americana é baseada nas declarações do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, sobre nazismo.  

Negociadores brasileiros próximos a Amorim acreditam que essa será a estratégia usada pelos EUA. Ao ser perguntado por jornalistas se compartilhava dessa visão, o chanceler respondeu: 

– Eu concordo.  

No sábado, o chanceler acusou os países ricos de orquestrarem uma campanha de desinformação nas negociações da OMC, ao acusarem os emergentes, e o G-20 em particular, de estarem dificultando um acordo para concluir a Rodada de Doha. O problema é que, para ilustrar, Amorim citou o chefe de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, que dizia que uma mentira contada muitas vezes acaba sendo aceita como verdade.  

Citar o nazista Goebbels chocou a principal negociadora de comércio dos EUA, Susan Schwab, que é filha de sobreviventes do Holocausto. Seu porta-voz, Sean Spicer, disse ao jornal francês "Le Monde" que "no momento em que tentamos encontrar um resultado favorável para as negociações, esse tipo de comentário é muito mal recebido". Spicer evocou a "história pessoal" de Susan e disse que um chanceler "deveria ter consciência de certas sensibilidades".  

Um alto funcionário da União Européia (UE) classificou o episódio de "altamente lamentável". Já o representante de Comércio da UE, Peter Mandelson, cujo pai é judeu, não deu importância:  

– Vamos deixar Goebbels de lado.  

Neste domingo, diante da repercussão de seus comentários nos jornais brasileiros e em algumas agências de notícia estrangeiras, Amorim tentou minimizar o episódio, que causou um mal-estar diplomático. 

– Eu sinto muito. Quem cobriu política no Brasil sabe que isso é dito milhões de vezes sem ofensa a ninguém. Comecei meus comentários desqualificando o autor. Talvez se eu tivesse dito o mesmo, sem mencionar o autor, o que seria uma espécie de plágio, não haveria reação – disse. 

No dia da declaração de Amorim, o Itamaraty já divulgara nota dizendo que ele fora "suficientemente cuidadoso para desqualificar o autor da frase". 

Mas o chanceler insistiu que os países ricos estão contando mentiras sobre as negociações da OMC:  

– O que mantenho é o seguinte: repetir uma distorção faz as pessoas acreditarem que a distorção é uma verdade. 

A representante de Comércio da Casa Branca, Susan Schwab, é filha de sobreviventes do Holocausto e, segundo seus assessores, teria ficado surpresa com a declaração de Amorim. 

– Estamos todos aqui para negociar de forma efetiva e esse tipo de comentário maldoso não tem lugar nessas negociações – disse, no domingo, o porta-voz de Susan Schwab, Sean Spicer. 

O porta-voz de Amorim, Ricardo Neiva, disse que o ministro lamenta que Schwab ou qualquer outra pessoa tenha se ofendido com os seus comentários. Em nota, o ministério das Relações Exteriores apressou-se a contornar o incidente.  

"O ministro Amorim foi suficientemente cuidadoso para desqualificar o autor da frase. Sua única intenção era destacar que, algumas vezes, falsas versões repetidas com frequência podem sobrepor-se aos fatos, e a propaganda pode suplantar a verdade", informou o Itamaraty. 

Segundo o porta-voz, o Brasil contesta os argumentos dos Estados Unidos e da União Européia, que afirmam ter feito ofertas generosas no comércio de produtos agrícolas, enquanto os países em desenvolvimento fizeram muito pouco para abrir seus mercados para produtos manufaturados. 

As declarações do ministro causaram um mal-estar diplomático, em uma semana considerada decisiva para a OMC. Os ministros de mais de 30 países devem começar as negociações na segunda-feira, em Genebra, a fim de concluir a Rodada de Doha, que já dura sete anos e tem o objetivo de estabelecer trocas livres entre os países. 

Amorim disse, no sábado, que ainda há muito trabalho a ser feito. Na Colômbia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou-se esperançoso sobre a conclusão da rodada de Doha.

 

Fonte: Reuters, O Globo, Deborah Berlinck, 20/7/08.

 


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