Harvard no lanche

 

 

 

 

Por que universidades e fundos de pensão dos EUA entregam à Advent bilhões
de dólares para ser investidos no Brasil
 

Até o fim do ano, a rede paulista de lanchonetes de beira de estrada Frango Assado abrirá seis unidades nas principais rodovias do Sudeste. Nesse mesmo período, a Viena inaugurará oito restaurantes em cidades como Porto Alegre, Rio de Janeiro e Brasília. Para esses investimentos, serão necessários 150 milhões de reais. Não vão faltar recursos. O dinheiro que será gasto na expansão desses negócios virá de investidores estrangeiros, entre eles fundos institucionais, como o que administra as doações que sustentam a Universidade Harvard, dos Estados Unidos. As redes Viena e Frango Assado foram compradas recentemente pela International Meal Company (IMC). A IMC, por sua vez, pertence à Advent, empresa americana com atuação em todo o planeta cuja especialidade é captar recursos, sobretudo de fundos de pensão, para comprar negócios promissores que propiciem uma boa rentabilidade de longo prazo. Entre os investidores da Advent há instituições como o fundo de pensão dos funcionários públicos da Califórnia, o fundo nacional das reservas de Singapura e também o fundo que administra os recursos de Harvard. 

A Advent está entre as cinco maiores empresas de private equity (como essa atividade é chamada no jargão em inglês) do mundo e é a maior de capital estrangeiro no Brasil. Além da Viena e do Frango Assado, controla outras, como a Dufry, de free shop, e a Kroton, dona da rede de ensino Pitágoras. Sua estratégia é sempre parecida. Primeiro, faz uma pesquisa para identificar empresas promissoras. Em seguida, aplica seu capital e assume a administração do negócio. Se tudo der certo, a empresa adquirida cresce, torna-se mais lucrativa e, finalmente, atinge estatura suficiente para lançar ações na bolsa de valores. Desde 1996, a Advent investiu 2,2 bilhões de dólares no Brasil. Os negócios não vão parar por aí. O ótimo momento da economia brasileira pode ser medido pelo fato de que a empresa acaba de captar 1,65 bilhão de dólares para aplicar na América Latina. A maior parte desse dinheiro ficará no Brasil. Afirma Patrice Etlin, diretor da Advent: "Esse é o maior fundo para mercados emergentes constituído desde a quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, e também o maior fundo desse tipo na América Latina". 

Tais recursos são uma das fontes mais saudáveis de dólares para as economias emergentes. Seus financiadores não são especuladores que fazem apostas de prazo curto e risco alto. Entre os países em desenvolvimento, a China e a Índia são os principais destinos desses recursos. Mas os fundos de private equity começam a ampliar sua presença no Brasil. Em 2001, os investimentos somaram pouco mais de 300 milhões de dólares. Em 2008, o total atingiu 3,6 bilhões de dólares. A perspectiva é que, com economia estável e expansão do poder de compra da classe média, as empresas de serviços como educação, alimentação e viagem possuam um excelente potencial de rentabilidade. São essas as áreas que atraem esses capitais. O americano Carlyle, também do ramo de private equity, comprou no ano passado a CVC Turismo. Já o Texas Pacific Group (TPG) é acionista da Azul Linhas Aéreas, enquanto o PineBridge (ex-AIG Investments) colocou dinheiro na Gol e nos supermercados Sendas. 

Os especialistas concordam que o Brasil oferece hoje mais segurança aos investidores do que uma década atrás. Mas, se o país quiser rivalizar com os gigantes asiáticos na atração desses capitais, precisará estimular o crescimento e superar os entraves burocráticos. Uma das áreas de especial interesse desses investidores no Brasil são os aeroportos, no cenário, cada vez mais provável, de que eles possam ser construídos e operados por empresas privadas. A Advent já administra um aeroporto no México e seis na República Dominicana. Seria um passo lógico investir em terminais brasileiros quando a legislação permitir.

 

Fonte: Rev. Veja, Renata Betti, ed. 2160, 14/4/10.

 


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