Ciências
Padrão medieval

 

Estudantes brasileiros dão vexame em novo ranking da OCDE.
Eles ignoram até o fato de a Terra girar em torno do Sol

 

Ricardo Duarte/Zero Hora
Aula de ciências: professores sem especialização e 80% das escolas sem laboratórios.

 

Um novo ranking internacional sobre o ensino de ciências mostra um cenário nada animador para o Brasil. Mais de 400000 estudantes, matriculados em escolas públicas e particulares de 57 países, responderam a uma prova de conhecimentos científicos básicos – e os brasileiros aparecem em destaque negativo no grupo dos piores. Mais precisamente na 52ª colocação (veja quadro abaixo). Esse fato não chega a surpreender. As avaliações para aferir o nível do ensino no Brasil reafirmam a péssima qualidade geral. Na comparação com os outros países as deficiências da educação brasileira parecem ainda mais constrangedoras. A mais abrangente dessas avaliações internacionais é justamente feita pela -OCDE (organização que reúne países da Europa e os Estados Unidos), responsável pelo atual ranking de ciências. Há sete anos a -OCDE testa os estudantes em leitura, matemática e ciências. O Brasil ocupa invariavelmente as últimas colocações. No ranking anterior de ciências, de 2003, o país havia ficado em penúltimo lugar. Nada mudou de lá para cá. No fim do ensino fundamental, os alunos continuam a ignorar a função dos órgãos do corpo humano, encaram com espanto o fato de a Terra girar em torno do Sol, desconhecem o que seja a camada de ozônio e são incapazes de definir a expressão "água potável". 

O resultado decepcionante dos estudantes brasileiros em ciências não é exatamente uma surpresa. Um conjunto objetivo de indicadores ajuda a explicar a situação. O mais espantoso deles veio à tona em um levantamento recente do Ministério da Educação (MEC) e diz respeito aos professores. Além de pouco preparados para o exercício da profissão, como todos os outros, 70% dos professores de ciências de escolas públicas ainda carecem de uma especialização na área. Isso mesmo: eles ensinam a matéria sem sequer ter estudado para isso. Outro problema grave é a escassez de laboratórios de ciências nas escolas. Apenas 20% delas dispõem de um. Esse é um limitador para os alunos estabelecerem a necessária relação entre a teoria e a sua aplicação no mundo real. 

Como resultado, os jovens ingressam nas faculdades de ciências com deficiências típicas dos primeiros anos do ensino fundamental – e costumam sair for-mados sem ter progredido o suficiente na matéria. A realidade, não há dúvida, compromete a produção científica do país. O Brasil responde por apenas 0,2% dos pedidos internacionais de patentes e está em 43º lugar em um ranking mundial de desenvolvimento tecnológico. Isso numa lista de 72 países. Resume Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, o órgão de apoio à pesquisa em São Paulo: "Milhões de pessoas com uma base científica tão sofrível certamente representam um obstáculo para o avanço tecnológico no Brasil". O ranking da -OCDE chamou atenção para o desastre em 2003 e nada foi feito para mudar o quadro. O novo alerta da semana passada vai também passar despercebido?
 

 

 

 


 O ranking completo da OCDE
 

1. Finlândia
2. Hong Kong
3. Canadá
4. China
5. Estônia
6. Japão
7. Nova Zelândia
8. Austrália
9. Holanda
10. Liechtenstein
11. Coréia
12. Eslovênia
13. Alemanha
14. Reino Unido
15. República Tcheca
16. Suíça
17. Macau
18. Áustria
19. Bélgica
20. Irlanda
21. Hungria
22. Suécia
23. Polônia
24. Dinamarca
25. França
26. Croácia
27. Islândia
28. Letônia
29. Estados Unidos

 

30. Eslováquia  
31. Espanha
32. Lituânia
33. Noruega
34. Luxemburgo
35. Rússia
36. Itália
37. Portugal
38. Grécia
39. Israel
40. Chile
41. Sérvia
42. Bulgária
43. Uruguai
44. Turquia
45. Jordânia
46. Tailândia
47. Romênia
48. Montenegro
49. México
50. Indonésia
51. Argentina
52. Brasil
53. Colômbia
54. Tunísia
55. Azerbaijão
56. Catar
57. Quirguistão

 

Fonte: Rev. Veja, Marcos Todeschini, ed. 2037, 5/12/2007.

 


Coletânea de artigos


Home