Por que tamanho apreço pela privatização
da educação superior?

Roberto Leher*

 

A generosa MP-213 que institui o ProUni vem ao encontro dos mais ambiciosos sonhos das instituições filantrópicas, comunitárias, confessionais e empresariais de educação superior. Após décadas de isenções fiscais e da contribuição patronal para a previdência social (superior a 20% do custo da folha de pagamento), benefícios que correspondem a um subsídio público de 25% em seus gastos, aporte que corresponde a cerca de R$ 840 milhões ao ano, as instituições filantrópicas que, a despeito de seudesprendimento material”, reúnem grande parte das maiores instituições de ensino superior do país, poderão fazer associações com empresas estrangeiras, a exemplo do que ocorre hoje entre o Pitágoras do ministro Walfrido Mares Guia e a Apollo International, vender patrimônio adquirido com isenções fiscais, como aviões, prédios, terrenos etc., remunerar os seus sócios, distribuir lucros e deixar o patrimônio como herança, tudo isso sem deixar de continuar de receber magnânimo apoio do Estado: mesmo na condição de instituições empresariais gozarão de completa isenção de impostos, o que reduz em cerca de 15% os seus gastos em troca de modestíssimas vagas.  

Mas a generosidade governamental não pára aqui. Somente após cinco anos os agora empresários não apenas de fato, mas também de direito, estarão pagando a integralidade da contribuição patronal para a previdência social

Caso todas as instituições venham a aderir ao ProUni, haverá um subsídio superior a R$ 2 bilhões /ano aos empresários, isso sem contar os cerca de R$ 1 bilhão do FIES. É importante destacar que o número de vagas é muito inferior às metas originalmente estabelecidas. Inicialmente, o MEC previa 400 mil vagas; agora não passará de 180 mil, meta a ser alcançada daqui a três anos, sendo metade composta de bolsas parciais (como os 50% restantes serão custados pelos alunos de baixa renda?)! A rigor, todos esses cursos poderiam ser na forma de “cursos seqüenciais” de curtíssima duração, a modalidade de educação minimalista “emnível superior para os mais pobres. Da versão original à MP, o custo relativo de cada vaga foi multiplicado por 2,8!  

Estudo da entidade dos reitores das universidades federais afirma que com apenas R$ 1 bilhão seria possível generalizar o ensino noturno das IFES, criando aproximadamente 400 mil novas vagas. Com o total de verbas públicas que está sendo previsto para as instituições privadas poderíamos ter mais de um milhão de novas vagas.  Os fatos desmentem o propósito social dessa política que faz avançar ainda mais a privatização do ensino superior, setor que totaliza 88% das instituições e 72% dos estudantes do ensino superior

Na concorrida Plenária Nacional do Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública (FNDEP), em 11 de setembro, todas as entidades –  Andes-SN, Conselho Federal de Psicologia, Contee, CNTE, CUT, Executivas Nacionais de Cursos, Fasubra e UNE  -  se posicionaram contra o ProUni. Como o Projeto de Lei passou a ser criticado e combatido por todos os setores, inclusive por reitores de universidades privadas que recusam a nivelação por baixo de todas as particulares, e na falta de argumentos para justificar essa política iníqua, Lula da Silva encaminhou o Programa por meio do uso autoritário de MP. A demonstração do grau de isolamento da política do governo Federal para a educação não poderia ser mais eloqüente

A pergunta sobre as reais motivações dessa medida é inevitável.Em um contexto de dramático estrangulamento orçamentário das instituições públicas, vítimas do draconiano superávit primário que fez secar as políticas públicas, por que tamanho desapreço pelas instituições públicas que tanta contribuições têm dado ao povo brasileiro? Lula da Silva está convencido de que as privadas são socialmente mais democráticas. Contudo, essa crença, conforme o IBGE, é falsa. A renda dos estudantes das privadas, comparando curso-a-curso é superior  a dos estudantes das públicas. Isso não quer dizer, em absoluto, que o ensino superior do país seja democrático. Longe disso, o Brasil é um dos países da América Latina de menor percentual de jovens neste nível de ensino.  

Qual a melhor alternativa: estabelecer a políticas de acesso vinculadas a expansão do ensino público, de alta qualidade, esforço que fortalecerá a capacidade de produção de conhecimento socialmente relevante ou inflar as estatísticas com cursos seqüenciais aligeirados, sufocando o setor público? Há dez anos, o Banco Mundial elaborou um documento afirmando que, no caso dos países latino-americanos, a única alternativa era esta última opção. A expectativa dos 52 milhões de brasileiros que votaram contra o neoliberalismo é de que a educação deve ser vista como um direito fundamental e não como uma mercadoria. Por isso, a reivindicação da universidade pública e gratuita como um direito de todos terá de ser buscada no espaço público. Os professores, técnicos e administrativos e estudantes que lutam para impedir essa contra-reforma, reunidos em uma Plenária Nacional que contou com mais de 1700 participantes, estão convidando o povo a se manifestar em defesa da educação pública no dia 25 de novembro em Brasília. A hora é essa!
 

* Professor da UFRJ e pesquisador do CLACSO do Laboratório de Pesquisas Públicas da UERJ, ex-presidente do ANDES-SN.


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