O segundo alerta

  

Novo relatório sobre impactos da mudança do clima no mundo mostra inação
dos governos, entre eles o do Brasil

Pela segunda vez em dois meses, cumprindo sua agenda, o IPCC – Painel Internacional sobre Mudança Climática – lança um alerta incisivo sobre o futuro do planeta. Como ocorrera em Paris, o relatório agora apresentado de Bruxelas reitera que o aquecimento global é uma realidade e vai piorar, mas acrescenta que os pobres pagarão mais pela omissão dos governos de hoje. 

Futuro não muito distante, ressalte-se. Segundo o sumário de Bruxelas, já em 2020 até 250 milhões de africanos poderão enfrentar escassez de água e redução no produto agrícola. Um continente relegado à miséria produziria hordas de refugiados em proporções inauditas. 

Por volta de 2050, depósitos subterrâneos de água do Nordeste brasileiro poderão receber menos 70% de recarga. O semi-árido nordestino caminharia para a desertificação. Não haveria Bolsa Família que bastasse. 

A biodiversidade também marcha para uma quadra escura, constata o IPCC (órgão criado em 1988 pela ONU). Cerca de 30% das espécies da Terra correrão risco de extinguir-se se a temperatura média do globo subir de 1,5C a 2,5C – algo mais que provável. A mortandade de corais na Grande Barreira, a leste da Austrália, deve acelerar-se. 

O governo brasileiro talvez comemore a retirada da menção à perda de 20% a 45% de árvores da Amazônia. Seria como regozijar-se com a omissão, pelo médico, da faixa de probabilidade de um filho morrer de inanição. Fica no relatório, porém, a previsão de que a floresta enfrentará uma "savanização", tornando-se mais parecida com o cerrado – só as cifras foram omitidas. 

Os representantes de governos de novo pressionaram para suprimir ou modificar passagens do relatório. EUA, Arábia Saudita, Rússia e China, em especial, batalharam para amenizar o documento que poderá ser usado para deles cobrar compromissos mais sérios com a saúde do globo depois de 2012. Até essa data, o controle das emissões de gases que contribuem para o efeito estufa é regido pelo Protocolo de Kyoto (cidade japonesa onde foi firmado o pacto internacional). 

As sessões se prolongaram madrugada adentro. Os autores cientistas protestaram. É da regra do jogo consensualista na ONU, que tem vantagens e desvantagens. O aumento da visibilidade do funcionamento do IPCC só reforça a credibilidade e o impacto de seus relatórios. 

Na condição de chanceladores desses documentos, torna-se mais difícil para governos nacionais justificarem sua inação. No Brasil, por exemplo, a ministra Marina Silva (Meio Ambiente), esforçou-se por fazer parecer que a administração Lula não está paralisada nesse setor, em contraste com todos os outros. 

A ministra revelou que o presidente encarregou-a de coordenar várias iniciativas num Plano Nacional de Enfrentamento de Mudanças Climáticas. Vem aí o PEMC, depois do PAC e do PDE, da educação. Compilam-se idéias prontas, medidas em andamento, orçamentos fantasiosos e, num passe de propaganda, o governo parece agir. 

Ao menos no que respeita à mudança climática, Lula aparenta ter escolhido uma coordenadora responsável. Isso não dá garantia de eficácia, contudo.

Fonte: Folha de S. Paulo, 9/11/2007.
 


“Governos não querem que divulguemos a informação” 

  

Especialista diz que lobby de países poluidores é legítimo, mas lembra que ciência se faz de forma independente.

Osvaldo Canziani, co-coordenador do grupo 2 do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

O presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), Rajendra Pachauri, talvez tivesse a intenção de manter em sigilo as pressões que a comunidade científica reunida na semana passada havia recebido de delegações governamentais.  

A resistência, entretanto, perdurou apenas até a primeira pergunta sobre o assunto: “Foi um exercício complexo, um documento difícil de se definir.”  

A partir de então, cientistas se dividiram entre louvar o esforço de negociação e críticas à interferência excessiva de EUA, Rússia, China e Arábia Saudita.  

No primeiro grupo se alinhou o físico argentino Osvaldo Canziani, doutor em Meteorologia pela Universidade de Londres, uma das maiores autoridades mundiais em mudanças climáticas e co-coordenador do grupo de trabalho do IPCC. 

Canziani, no entanto, tem postura que o distingue: ele não se nega a comentar as pressões, que considera legítimas. “Nós, cientistas e políticos, devemos discutir para encontrar o consenso.” 

Osvaldo Canziani nasceu na Argentina, é físico e climatologista, com doutorado em Meteorologia pela Universidade de Londres; é especialista em impactos do aquecimento e trabalhou, por 25 anos, na Organização Meteorológica Mundial. 

Eis a entrevista concedida por Oswaldo Canziani para “O Estado de SP”: 

- Em fevereiro, cientistas comemoraram a mínima ingerência das delegações no primeiro relatório do IPCC. Em Bruxelas, ao contrário, a interferência foi ostensiva. Por que, na sua opinião, os governos mudaram de postura? 

- Os problemas eram distintos. Em fevereiro, investigamos a física das mudanças climáticas. Em Bruxelas, estudamos aspectos sociais e econômicos do aquecimento global. Era um tema de acento muito mais político. Tomemos como exemplo os países produtores de petróleo. Se afirmarmos que as emissões de CO2 na atmosfera são decorrentes da queima de combustíveis fósseis, essa constatação contraria interesses. Os governos não querem que divulguemos a informação, porque as implicações de sua atividade industrial ou comercial serão prejudicadas. 

- Como se deu o confronto de posições entre governos e cientistas? 

- Nós, cientistas, não fizemos considerações políticas. Os delegados governamentais o fizeram. Mas é bom ressaltar que nos países desenvolvidos os grupos científicos operam normalmente, com independência. Nós, cientistas e políticos, devemos discutir para encontrar o consenso. 

- Quais delegações mais pressionaram pela redução da ênfase do relatório final? 

- As que mais pressionaram foram as delegações norte-americana, inglesa, chinesa e árabe, esta última porque vende petróleo. Todos tinham seus interesses - e é óbvio que exerçam seus lobbies. Os EUA, com o governo atual, não quiseram sancionar o Protocolo de Kyoto. Agora, precisam organizar uma política própria de redução dos efeitos do aquecimento global. Para tanto, precisam definir um conceito de aquecimento global. 

- A delegação do governo brasileiro exerceu pressões? 

- Sim, mas foram intervenções absolutamente dentro da ética política e científica. É natural que o governo se preocupe em chegar a um bom termo sobre a parte que lhe cabe nas alterações climáticas. As informações sobre a Amazônia, por exemplo, são vitais para o Nordeste brasileiro e para o Estado do Amazonas. Mas também o são para o Uruguai, para a América Latina e para o globo. 

- Por isso o termo “savanização da Amazônia” foi incluído? 

- Não há dúvida sobre os efeitos do aquecimento global sobre a floresta. Parte da Amazônia se transformará em uma savana, uma vegetação semelhante ao cerrado brasileiro. E ela virá mais cedo do que se imagina, porque se continua a desmatar. Os rios sentirão o impacto, porque a água se recicla. 

- Além da Amazônia, o que muda na região em que se situa o Brasil? 

- A Amazônia, a mata atlântica, o Pantanal, tudo muda. Mas falamos muito das mudanças do clima quando é preciso que continuemos atentos à forma como usamos o ambiente e o clima. Estive nas Sete Quedas do Iguaçu antes da construção da usina de Itaipu. Hoje, nada daquela beleza é como já foi. A culpa das mortes em um deslizamento de terras em uma encosta de morro não é do morro, não é da chuva. É da forma como o homem ocupou o morro. 

- Que outros efeitos relacionariam o aquecimento global ao Brasil? 

- A geografia e o clima não têm fronteiras. Todos os problemas estão aparecendo e resultam em surpresas terríveis como tornados, como o Catarina que assolou Rio Grande do Sul e Santa Catarina há três anos. 

- Como monitorar com precisão essas alterações climáticas? 

- Em clima, tudo se entrelaça. Temos de organizar informações em rede. É preciso que não apenas os Estados desenvolvidos do Brasil, por exemplo, tenham um monitoramento do clima eficiente. É preciso que o Piauí faça seu monitoramento. Cada região de um país continental como o Brasil tem características distintas. Mas se há mudanças, elas terão impactos continentais e globais. É importante para a América do Sul e para o mundo que estudemos cada região, cada alteração climática, seja no Nordeste brasileiro, seja na Patagônia. 

- Mas países em desenvolvimento, como Brasil e Argentina, estão preparados para o monitoramento? 

- Um dos problemas é que não temos, nos países em desenvolvimento, uma memória climática. Nas extintas florestas paraguaias, as rajadas de ventos deixavam rastros muito claros. Hoje, sequer lembramos que esses fenômenos aconteceram. Como poderemos estar preparados para o que vem se sequer conhecemos o que aconteceu? A natureza tem suas leis. E o homem não as conhece nem as obedece.

 

Fonte: O Estado de S. Paulo, Andrei Netto escreve de Bruxelas,8/4/2007.

 


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