ADUR Online #4: Ao atacar o Censo, Bolsonaro atrapalha a avaliação das políticas públicas no Brasil
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- 28 de ago. de 2020
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*ADUR OnlinePor: Theófilo Rodrigues Organizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Censo Demográfico é a pesquisa mais detalhada que o Brasil possui hoje para conhecer sua realidade. Trata-se de uma verdadeira radiografia da sociedade brasileira, sistematizada em um minucioso banco de dados que passa a ser então utilizado por pesquisadores, gestores públicos e especialistas das mais diversas áreas. Infelizmente, até mesmo isso está em risco no atual governo de Jair Bolsonaro. Realizado a cada dez anos, o último Censo ocorreu em 2010. A nova edição deveria ocorrer neste ano de 2020. Contudo, em decorrência da pandemia, a pesquisa foi adiada para o ano de 2021. Os motivos para o seu adiamento são justos e facilmente justificados. Afinal, não faria sentido nem seria sensato, numa situação de isolamento social, levar recenseadores até a casa dos 200 milhões de brasileiros. O que é incompreensível, no entanto, é que esse adiamento corra o risco de significar a não realização do Censo. Nas últimas semanas, diversas notícias trouxeram a informação de que o governo federal pretende retirar do Orçamento 2021 os R$2 bilhões necessários para a realização do Censo, para que esses recursos sejam destinados ao Ministério da Defesa. Curioso que, em meio a uma pandemia, o governo federal considere ser mais importante repassar recursos para as Forças Armadas e não para pesquisas que possam oferecer indicadores sociais e econômicos mais atualizados. Esse boicote ao Censo pode representar um apagão estatístico, o que dificulta a implementação de políticas públicas no Brasil. Só para termos uma ideia da dimensão do prejuízo, sem os dados da pesquisa, nossas informações sobre a população podem ficar defasadas, o que prejudica a própria produção de vacinas para o Covid 19, por exemplo. Como o Ministério da Saúde poderá planejar um bom combate ao vírus sem informações sobre a população? Além disso, a ausência do Censo também cria obstáculos para que os gestores públicos saibam quem são os cidadãos que precisam de auxílios como o Bolsa Família, agora rebatizado de Renda Brasil. Vivemos tempos estranhos e perigosos. Terraplanistas e negacionistas da ciência chegam ao Congresso Nacional e ao governo federal de forma inédita. Tudo bem que a pluralidade de opiniões seja pré-requisito para a existência de uma democracia. Mas é assustador imaginar que políticas públicas possam ser geridas por aqueles que não acreditam na importância da pesquisa e dos dados científicos. Em tempos de pandemia, governar sem o Censo é o mesmo que navegar sem instrumentos no meio de uma tempestade. Até onde a irresponsabilidade do capitão desse navio nos levará? Theófilo Rodrigues é pesquisador de Pós-Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ.ADUR ONLINE é um espaço da base do Sindicato. As opiniões expressas no texto não necessariamente representam a opinião da Diretoria da ADUR-RJ.



